Memória de Áfica

Tenho pena, mas vou ter de os desiludir. Só consigo retirar algumas notas soltas de memórias que quero esquecer.

 

A África que eu conheci: o pesadelo de uma guerra que nunca consegui compreender. A transformação de muito boa gente, que quando vestia um camuflado se transformavam, por vezes, num monstro de bestialidade incompreensível, com a G3 nas mãos. Talvez por inconsciência. A maior parte das vezes por um medo que era imperioso iludir!

A degradante pobreza dos gentios. O olhar vivo mas espantado das crianças nuas e de barrigas inchadas. Jovens mulheres semi-nuas a amamentar bebés sem futuro. O porte nobre e magoado dos velhos à beira das picadas. Ditos e atitudes infames de jovens quase imberbes, transformados em “machos” e “guerreiros”.

23 anos, furriel miliciano numa comissão de serviço como especialista de transmissões.

 

O desembarque à noite, no aeroporto na Beira, depois de quase 20 horas de voo, com longas escalas em Angola, na África do Sul e na Rodésia. Sair do duche, com o corpo de novo carregado de suor oleoso. O roncar do aparelho que era pomposamente chamado de ar-condicionado, mas que não passava de um barulhento dispositivo que, libertando movimento e calor, provocava o deslocamento do ar, criando uma ilusão de frescura.

Na manhã seguinte, a coluna militar. O tenenete-miliciano de cavalaria, quase da mesma idade, comandante de um pelotão de transportes especiais: Tome lá esta “galera”, que por acaso era uma 109 de caixa aberta. Aqui o nosso 1º cabo vai acompanha-lo como ajudante; o resto da secção são “aqueles gajos” ali… Sacos para dentro da caixa da pick-up. A mala da ferramenta e as armas dentro da cabina. E os africanos?! Os “pretos vão lá atrás”, onde é que você queria que fossem? 170 km de sobressalto a passo de caracol. Com três jovens moçambicanos, dependurados e assustados, “lá atrás”,  na caixa da 109.

Tiros ao longe. Novamente crianças e velhos à beira da “estrada”, com o olhar entre o espantado e o vazio. 

Os campos de cana. Vila Pery, pequena cidade quase encostada à Rodésia. O cerrado ambiente racista que “escorre” do vizinho do lado.

As escapadelas nocturnas ao Bar do Moinho, já fora do perímetro da cidade, perto da velha fábrica têxtil.

O pesadelo dos dias, a solidão das noites..!

O regresso à Beira, num heli dos “paras”, para apanhar o 727 para Nampula. Quartel de Nampula, rodeado pelas montanhas. À recepção, uma tempestade tropical com a “superprodução meteorológica” de 6 ou mais trovoadas ao mesmo tempo. Espectáculo de luz e som, círculos de fogo;  sempre presente a imagem dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.

A nostalgia vem das escapadelas para Nacala, aos fins de semana. 

A Ilha de Moçambique, a Praia das Chocas. A terra vermelha e as vivendas imaculadamente brancas.
As noites tranquilas e solitárias, à beira mar. O banho nu às 3 horas da madrugada nos recifes de coral. Aquela água límpida, quente e luminosa.
As lagostas compradas aos pescadores, à saída das canoas, a 100$00 o “par”.

 

A inconsciência dos 23 anos e a descarga de adrenalina.

 

As longas corridas com a nova pick-up Toyta do chefe de posto da Praia das Chocas, pelos longos trilhos de areia, nos campos de sisal, estradões a perder de vista.
Os incríveis saltos nas regueiras!
As nocturnas pelo capim fora, um pouco ao acaso e a manobrar o “foco”, para fotografar os grandes felinos, muitas vezes equilibrado na caixa de carga da pick-up. Outras vezes ao volante, numa condução quase cega..!

A sorte acompanhou-me. A memória ficou.

Que eu me esforço para que seja selectiva. Ao escrever isto estou a sentir os cheiros, a ouvir os ruídos, mas especialmente a ouvir o grande silêncio da noite Africana!

Mas não, não consigo deixar esquecido o olhar das Crianças e dos Velhos…  Mas as Crianças!!!
Com o pensamento nos trópicos e em Março de 1974, lembro-me de neve e de palavras de Augusto Gil.

Jorge Cruz
Matosinhos, memórias de 1974

 

Nota do editor
Texto repescado de uma intervenção  assinada por  Jorge Cruz e publicada no extinto “MosquiTTo.TTVerde”
Foto de uma das zonas referidas no texto (Praia das Chocas), recolhida por nós cerca de 12 anos depois.

 


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