A História do LZEC (#2)

Durante a viagem com o José Duro, para o Sul de S. Tomé, encontrei-me de repente com as minhas memórias de infância, a estadía noutros países africanos, outrora províncias ultramarinas.  Terras de sangue luso, africano, oriental e outros, erguidas e mantidas até à exaustão com o esforço de portugueses de todas as côres, feitios, raças e religiões…



Guiné-Bissau

Foi divertido…no pátio de nossa casa eu e o meu irmão mais velho, o Lourenço, competíamos acerca dos sapos….não era uma corrida ou um concurso de saltos. A nossa disputa-se prendia-se só com a quantidade…com o número de animais que o nosso corpo podería albergar…nos ombros, na cabeça, no pescoço, nos braços…eram dezenas, se calha centenas, de sapos gordos e escuros que colocávamos cuidadosamente em cima de nós…imagino que o objectivo fôsse colocar o maior número possível. Ainda hoje me pergunto porque é que eles não fugiam. 

Ao lado de nossa casa haviam umas ervas…por hipótese, algum tipo de gramínea de folhas longas e lanceoladas, que escondiam muitos, muitos gafanhotos…lembro-me, particularmente de um, com barriga encarnada e asas verdes….que dentro da cozinha saltou para o meu irmão, provocando-lhe uma reacção intempestiva e energicamente oposta à minha brincadeira. Retorqui prontamente, és um maricas, um nojentinho…e eu juntei em cima de mim mais sapos do que tu.

Havia ainda a Estrela, uma cadela Boxer, que não me lembro se, se babava…mas admito que essa desagradável secreção canina me incomodasse menos na altura, do que hoje, já que deveria ter 4 anos de idade…nesta idade nada nos incomodava…nem fome, nem sede, nem frio.

Não me lembro de mais nada…nem mesmo que regressei à Metrópole com a minha Mãe e restantes irmãos, três, e que o Lourenço, o mais velho, lá ficou lá mais um ano com o meu Pai acompanhando-o ao serviço da Pátria, defendendo aquele território, contra vis agressões externas, que outrora fora Portugal, com a mesma convicção com que eu hoje defendo a minha casa, a minha belguita e a minha Família. Era esse o sentimento. O mais natural, o mais lógico…nada de novo, portanto.

Angola

Lembro-me daquela terra vermelha e de um determinado tipo de cheiro que me é difícil descrever…lembro-me dos dilúvios da época das chuvas, onde tudo ficava alagado em poucos minutos…e depois a alegria de nós, miúdos…uns por poderem sentir a água outros por apenas poderem contemplar esse cenário…os rapazes da minha idade, todos negros, deliciavam-se naquela imensidão de água vermelha, barrenta, imensa…logo improvisavam barquitos, pequenos pedaços de madeira vadia e, do nada, esboçavam sorrisos de alegria e diversão, contentamento e paz…a nós, a mim e aos meus irmãos, não nos era permitida tal veleidade, não podíamos molhar os pés, já que poderíamos ficar doentes…parece-me ser esse o argumento mais lógico, já que toda a vida fomos proibidos, por minha Mãe, de ficarmos doentes…em vez dos mimos, o mais que poderíamos esperar era um raspanete, verdadeiramente fundamentado…hoje, entendo isso…é uma perda de tempo ficar deitado na cama à espera que a doença passe….uma verdadeira perda de tempo. Além do acréscimo de trabalho que isso comporta.

Não havía lançamento sem peixe, fôsse ele balão, verde e papudo, ladrão de anzóis e chumbeiras, fôsse ele outra coisa qualquer que a memória me esconde. E as alforrecas na areia branca e água quente. Tínhamos medo delas, pela irritação cutânea que provocavam. Ou aquelas aranhas gigantes, as santolas, na praia da Contra Costa, a par de uns belíssimos dias dentro de água, gozando a mais santa das infâncias. A cana de pesca foi uma prenda de anos; era branca, com um punho em madeira. Eram longas pescarias, tal era a abundância de alimento que aquelas águas comportavam.

No quintal de nossa casa abri um buraco naquela terra vermelha e quente. Cuspi uns caroços de tomate…e nasceu um tomateiro. Ao lado desta viçosa planta abri um outro…enterrei qualquer coisa a que se sucedeu um tipo de coqueiro ou palmeira…quando regressámos à Metrópole estava mais alta do que eu…talvez pela fertilidade do solo e benevolência do clima, atestado de humidade e temperatura favoráveis.

A praia do Mussulo tinha uma areia escaldante, usávamos folhas de palmeira, como trilhos…e pé ante pé lá nos deslocávamos, ora para a água, ora para fora dela. De repente os pescadores puxavam uma rede…eram aos milhares os animais marinhos…cheios de côres e formas diversas, algumas estranhas, até, resgatados a uma água morna e transparente. 

Aquele Homem era estranho, tinha uns ossos cravados no nariz e nas orelhas…e vivía numa cabana de madeira e palha. Era velho e os seus olhos tristes. Sentado num tronco de madeira olhava a vida como se dela já nada esperasse. Fomos ao encontro dele com um amigo. Andámos armados em caçadores, as presas eram pombas. Ele apontou-lhes a arma, qual valentão. Pareceu-me estranha a idéia de matar as pombas só por matar…não seríam para comer, nem mesmo para dar aos cães. Pego numa pedra e arremessando-a, afugento-as propositadamente. O caçador ficou furioso e resolve começar a fugir ameaçando-me que o tal velho viria atrás de mim, para me maltratar….balelas. Desatei a correr atrás dele, assustei-me com a idéia de me perder ali, naquele sertão africano, longe de tudo e de todos. No entanto estávamos apenas a alguns metros do aeroporto de Luanda. Nada como ser criança, onde o imaginário funciona numa qualquer outra dimensão, que não esta.

João Bento, onde andas tu?…estás vivo e de saúde?…ou, infelizmente, estás morto ou mutilado por uma mina, a mais cobarde forma de matança de culpados e inocentes?

Será que te lembras de nós, da escola? Éramos brancos, andávamos na mesma classe, eu o meu irmão e tu…andávamos sempre a implicar com a Dalila e a Elisabete. A Dalila tinha um grande sinal penso que num perna. 

Banana preta, pega pisei-te e agora vais-te esborralhar toda por aí…ei, afinal não estava podre. Sã e cheia de vida, mas com uma casca estranha e escura. Além disso no meio do chão…estavas mesmo a pedir que te pisassem. Bem…desculpa-me…não imaginava. E continuei a caminho do supermercado fazer algumas compras. E de regresso, eis que, fui assaltado. Uma cobardía. O miúdo pediu-me para ver o que eu tinha na mão. Mostrei-lha e no mesmo instante fiquei sem os vinte escudos. Era uma nota velha e engelhada, mas dava para comprar muitas coisas…a carne custava por quiilo 18 tostões…e um ananaz 25. A surpresa foi tal, que me limitei a vê-lo fugir, feliz e contente…e a rir-se do miúdo branco, ingénuo e idiota. 

Os fins de tarde eram, muitas vezes, passados na Base Aérea, assistindo a sessões de cinema. Não faço a mais pequena idéia que tipo de filmes seríam…arrisco apenas o palpite de que deveríam ser próprios para serem visionados e apreciados, por gente da minha idade. Bendita censura.

Muito perto dali ouvíamos com frequência dois carros de corrida…um Alfa Romeo e um BMW 2002 ti, pertencentes a Nicha Cabral e António Peixinho. Era uma delícia vê-los, ouvi-los e invejá-los. Este último sentimento era depois recompensado pelo meu Pai, que nos deixava guiar o carro…sentados ao seu colo, lá íamos fazendo o gosto ao dedo e imaginando a nossa própria corrida. Às vezes íamos ver os kartings.

João Brito e Faro
(Publicado inicialmente em http://mosquitto.TTVerde.com )

continua…


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